Ceará entra no radar do petróleo após descoberta considerada rara pela ANP.

A equipe da Agência Nacional do Petróleo (ANP) que visitou o sítio onde um agricultor encontrou petróleo ao furar um poço, no interior do Ceará, se surpreendeu com o achado por causa da baixa profundidade na qual o líquido foi encontrado.

A substância foi descoberta em 2024 na propriedade do agricultor Sidrônio Moreira, na zona rural de Tabuleiro do Norte, município na divisa com o Rio Grande do Norte e próximo à chamada Bacia Potiguar – região onde já ocorre exploração de petróleo em terra no estado vizinho. Na quarta-feira (20), a ANP confirmou que a substância é realmente petróleo.

A família havia comunicado à ANP sobre o possível achado em julho de 2025, mas a equipe da agência visitou o sítio apenas no dia 12 março de 2026, após o caso ser revelado pelo g1. O g1 acompanhou a visita dos técnicos, que disseram ser incomum o encontrar o petróleo na profundidade que Sidrônio encontrou, de cerca de 40 metros, considerada rasa em termos geológicos.

“Existe o processo de exsudação, que é quando o petróleo ou hidrocarboneto como um todo vai à superfície de maneira natural. Mas não é o caso, claramente, aqui. Houve uma perfuração, uma perfuração rasa, uma profundidade muito abaixo do que é naturalmente realizado na exploração e produção de petróleo e gás”, explicou à época Ildeson Prates Bastos, superintendente da ANP.

“Isso nos causou um pouco de espanto, mas considerando a área e a geologia da região, sendo uma borda de bacia, a gente pretende dar continuidade aos estudos para entender melhor o que pode ter acontecido”, pontuou o especialista durante a visita.

 

Na última quarta-feira (20), pouco menos de dois meses após a visita da equipe, os resultados dos testes da Agência Nacional do Petróleo confirmaram se tratar de petróleo. Agora, a ANP deve iniciar uma fase de estudos para avaliar o tamanho das reservas e a viabilidade da exploração.

Família espera exploração

Ao g1, o gerente de vendas Saullo Moreira, filho de Sidrônio, explicou que a família tem expectativas de que a exploração comercial do petróleo encontrado no sítio seja possível, embora compreenda que ainda existe um longo processo pela frente.

“Por enquanto, tudo o que tivemos foram custos e movimentações relacionadas à descoberta. Nossa esperança é que, se tudo avançar positivamente no futuro, possamos ter algum retorno que nos ajude financeiramente”, afirmou Saullo.

À TV Verdes Mares, Sidrônio afirmou que recebeu a notícia na noite da quarta-feira com satisfação. “Já vinha esperando, eles tinham dito que eu esperasse que vinha notícia boa e eu tava esperando pela notícia. Vamos esperar o primeiro passo, que tudo corra paz e isso saia logo”, disse.

Mesmo com a descoberta feita dentro da própria propriedade, Sidrônio não terá a posse do petróleo. Isso porque a Constituição Federal determina que o subsolo e seus recursos minerais, incluindo petróleo e gás natural, pertencem à União.

Ainda assim, o agricultor poderá receber uma compensação financeira caso a área venha a ser explorada comercialmente no futuro. Segundo a legislação brasileira, proprietários de terrenos onde ocorre produção de petróleo podem receber um percentual sobre a exploração, valor que pode chegar a até 1%, dependendo de fatores técnicos e econômicos.

➡️ Em resumo: Sidrônio não poderá vender o petróleo por conta própria, mas poderá ser compensado financeiramente se houver exploração comercial da área.

ANP fará análise técnica

Uma vez concluída a análise técnica da ANP para avaliar o tamanho da jazida, a qualidade dos recursos e a viabilidade da exploração, a agência pode sugerir que o local seja incluído nos chamados blocos de exploração.

A região da jazida seria então dividida em blocos de exploração, isto é, em diferentes áreas que serão leiloadas para as empresas realizarem a exploração de petróleo. Não há garantia de que a área será explorada comercialmente, já que os interessados na exploração ainda vão analisar se a operação compensa financeiramente.

O processo como um todo, desde a descoberta até a conclusão das pesquisas, o leilão da área, a instalação da operação e a obtenção de licenças ambientais, pode levar anos. A ANP também destacou que a própria análise técnica tem um prazo definido para conclusão.

Na foto estão Sidney Moreira (esquerda) e Sidrônio Moreira (direita) no sítio onde moram em Tabuleiro do Norte. — Foto: Gabriela Feitosa/g1

Na foto estão Sidney Moreira (esquerda) e Sidrônio Moreira (direita) no sítio onde moram em Tabuleiro do Norte. — Foto: Gabriela Feitosa/g1

“A partir do resultado da análise, a ANP abriu um processo administrativo com a finalidade de promover a avaliação técnica da área e de seu contexto geológico, inclusive quanto à eventual inclusão de bloco exploratório na Oferta Permanente de Concessão (principal modalidade atual de licitações de áreas para exploração e produção de petróleo e gás)”, disse a agência por meio de nota. “A inclusão de blocos no edital da Oferta Permanente necessita de diversas etapas, não só internas da ANP como também de outros órgãos, como órgãos ambientais e ministérios”.

Descoberta por acaso

A substância semelhante a petróleo foi encontrada em novembro de 2024 enquanto o agricultor Sidrônio Moreira perfurava o solo em busca de água para abastecimento da família – que não possui água encanada em casa. A ideia era formar um poço artesiano na propriedade. No lugar da água, Sidrônio viu jorrar um líquido preto, denso, viscoso e com cheiro de combustível.

Longo processo

A ANP é o responsável por regular e fiscalizar todas as etapas da exploração de petróleo no Brasil, desde a descoberta até o início do processo de extração. Nestes casos, após a descoberta de uma possível jazida, é feita uma notificação ao órgão, que pode iniciar estudos para averiguar se, de fato, há petróleo na região, em que quantidade e de qual qualidade.

Após a confirmação e delimitação das jazidas, a ANP divide a região em blocos de exploração, isto é, em diferentes áreas que serão leiloadas para as empresas realizarem a exploração de petróleo. O processo como um todo, desde a descoberta até a conclusão das pesquisas, leilão, instalação da operação, obtenção de licenças ambientais, pode levar anos.

“Algumas regiões eles já têm muito bem mapeado. Regiões que existem estudos, especialmente os estudos geológicos, onde eles fazem análises físicas para ver o fato, como é que está o subsolo, para avaliar o tamanho do poço, do reservatório. Quando eles reúnem essas informações, informações econômicas, de impacto ambiental, eles tramitam um processo de enquadramento daquela área, como um novo bloco a ser colocado em operação”, explica o engenheiro Adriano Lima, que ajudou a família de Sidrônio a contatar a ANP.

IFCE mediou contato com a ANP. — Foto: Gabriela Feitosa/g1

IFCE mediou contato com a ANP. — Foto: Gabriela Feitosa/g1

Muitas vezes, ocorre de uma área já mapeada e liberada para exploração pela ANP não atrair interesse de investidores devido ao tamanho da jazida, a dificuldade de extração, o custo da instalação da operação ou mesmo a baixa qualidade do petróleo, que exigiria mais gastos no processo de refino.

Portanto, mesmo com a formação de um bloco de exploração, há a possibilidade dele nunca ser arrematado para exploração.

“O custo de se montar uma unidade de produção numa região tem que ser equivalente ao retorno que a operação vai ter”, aponta Adriano Lima. “O retorno tem que estar relacionado à qualidade do óleo que ele vai extrair e à quantidade, à duração, o tempo que ele vai conseguir produzir”.

Fonte: G1 CE.

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Post Author: Redação

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